
Guerra Assimétrica
Para entender o modo de atuação adotado pelas facções criminosas, é preciso um pouquinho de história militar.
Enquanto não surgiram armas de fogo mais precisas e mais rápidas de carregar, as batalhas eram basicamente corpo a corpo; havia vantagens em saber manobrar e escolher o terreno, mas em quase 90% dos casos o vencedor era simplesmente o exército maior, e isso durou basicamente até as guerras napoleônicas. Já a 1ª Guerra Mundial é o exemplo mais conhecido de conflito de 2ª geração: com metralhadoras e fuzis de repetição, não adiantava você mandar um exército maior avançar contra um inimigo entrincheirado e com mais poder de fogo. A 2ª Guerra já estava na 3ª geração: com os tanques, aviões e navios desempenhando papel muito maior, a mobilidade passou a ser decisiva e os nazistas inventaram a blitz krieg (guerra-relâmpago); a invasão da Sicília e o desembarque na Normandia foram o troco. Maravilhosas fortificações, como a Linha Maginot, passaram a ser apenas um monumento à ineficiência.
A Guerra do Vietnã marcou uma 4ª geração de conflitos armados, cunhando-se a expressão guerrilla. Mais adiante, o terrorismo, a inteligência e a sabotagem, que também já estavam no rascunho do Velho Testamento, passaram a ocupar o lugar central, em vez de secundário. Na verdade, a maioria dos confrontos não se dá mais entre dois exércitos regulares, fardados e profissionais; são conflitos internos de baixa intensidade. Bombas atômicas são inúteis contra terroristas e espiões infiltrados em seu próprio território, ou contra a guerra cibernética na internet. Essa guerra irregular e assimétrica (os antagonistas não usam as mesmas armas, táticas e estratégias), é, portanto, marcada por atentados terroristas e pequenas refregas seguidas de fugas imediatas. O objetivo do seu adversário não é mais vencer grandes e decisivas batalhas campais, mas desgastar os governantes e assustar a população, gerando um estado de alerta permanente e, portanto, o desperdício de recursos e um estresse exasperado. No nosso caso, constantes enfrentamentos a tiros e, de vez em quando, incêndios a ônibus ou assassinato de autoridades públicas.
Como disse Bauman, o Mal atualmente é liquefeito, está sempre mudando, e o mais importante não é deter o rio, mas identificar sua nascente e mapear o seu leito.
*Henrique Geaquinto Herkenhoff é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV
*Edson Lunardi é coronel EB R1 e Doutor em Ciências Militares.
*Denilson Gonçalves Lino do Nascimento é capitão-tenente MB R2, ex-integrante do GRUMEC e mestre em Segurança Pública.
