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Dimas e Gestas - Artigo fala sobre as mortes violentas em penitenciária de Manaus
06 de Janeiro de 2017 • 14h39
Dimas e Gestas - Artigo fala sobre as mortes violentas em penitenciária de Manaus

“Não tinha nenhum santo...” essa foi a declaração do Governador do Amazonas ao se referir aos 56 presos mortos durante uma rebelião iniciada no dia 1º de Janeiro de 2017, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus.

A história dos dois ladrões que foram crucificados com Jesus todos nós conhecemos e já ouvimos muitas vezes. Na narrativa dos evangelhos o personagem principal da história é o próprio Jesus e quase nenhuma atenção é dada a história destes coadjuvantes que ladeavam Jesus e eram figuras mal vistas pelos judeus, pois eram ladrões e malfeitores. Qualquer semelhança não será mera coincidência, pois a humanidade é repetitiva.

O nome destes dois personagens que ladeavam Jesus no momento de sua morte não estão citados nos Evangelhos. Coube ao Evangelho de Nicodemos, um livro apócrifo, não oficializado, considerado como não canônicos pela Igreja Católica, tendo surgido no século III, em seu capítulo 9, verso 5, a identificação dos dois malfeitores como sendo Dimas e Gestas.

Dimas e Gestas são: o bom e o mau ladrão, respectivamente. Eles eram considerados bandidos perigosos, o que explica  crucificação, já que as leis romanas reservava esta punição somente aos grandes criminosos e aos escravos.

Atualizamos cotidianamente as crucificações, e nos acostumamos à elas, e não raro chancelamos as práticas romanas, como forma de resolução para o enfretamento à criminalidade e violência. Confirmado pelos dados levantados pelo G1 dando conta que o Brasil teve 392 mortes violentas registradas dentro dos presídios no ano de 2016 com base em dados fornecidos pelos governos dos 26 Estados e do Distrito Federal. O número equivale a uma média de mais de um morto por dia, e os dados se referem a todas as mortes consideradas não naturais – o que inclui homicídios e suicídios. Com essa contabilidade tivemos mais de três carandirus no ano de 2016. 

Deixando no retrovisor os romanos e lançando luz na nossa realidade, convenhamos: se foi disputa de facções, má gestão e superfaturamento de recurso público, negligência, omissão ou ação deliberada, neste momento não me atrai a atenção. De certo, deverá ser apurada, individualizada e responsabilizada em sede de investigação e processo. O que temos agora são 56 pessoas mortas, com requintes de crueldade (algumas decapitadas), que experimentaram o inferno na terra, e que à exemplo de Dimas e Gestas, podem sim  Senhor Governador, agora, serem santos. E nesta história, podemos também identificar Herodes e Pilatos, pois as Marias já estão ao pé da cruz.

 Verônica Bezerra, Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-ES 

 

 
     
 
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