CARTA PARA VALÉRIA

Bruno Marins - OAB/RJ
Bruno Marins - OAB/RJ

Carta do Presidente da OAB-ES, Homero Mafra, à advogada Valéria dos Santos, que foi algemada durante audiência em Duque de Caxias, estado do Rio de Janeiro. 
 

CARTA PARA VALÉRIA 

Na segunda eu estava em Linhares, no Espírito Santo, atendendo uma cliente.

Os vídeos começaram a pipocar.

Em todos os grupos os mesmos sentimentos de indignação e repulsa pelo abuso contra você.

De mim, ao lado do repúdio ao ato, o respeito por sua postura, firme, indignada e, paradoxalmente, serena.

Sair da mesa de audiência?

Aceitar o ato de abuso, se levantar e ir embora?

Alguns até gostariam que você tivesse feito isso.

Afinal, o tempo urgia, tinham outras audiências a serem realizadas e você, ao exercer seu direito, estava atrapalhando a justiça feita apressadamente, a justiça máquina, a justiça linha de produção.

O que você pedia?

Pedia o absurdo.

Queria o respeito as suas prerrogativas e a presença do representante da Ordem.

Advogada insolente!

Não conhece seu lugar?

Acate as ordens, silencie.

Prerrogativa?

O que é isso?

Garantia deferida à advocacia para o pleno exercício profissional?

Bobagem.

Aqui mando eu - a Juíza, assim, com maiúscula.

Não sou advogada. Abdiquei dessa condição quando passei a ser juíza leiga.

Leiga, mas juíza.

Advogada? O que é?

Encerrei a ata sem ouvir seus protestos?

Tenho pressa. Temos pressa. A vida há de seguir.

Hoje o tempo é outro, sem espaço para “filigranas” jurídicas.

Ler a contestação?

Que bobagem, mania de exercício pleno da defesa.

Não aprendeu ainda?

“Primeiro a sentença, depois o processo”, disse Lewis Carrol em Alice no país das maravilhas.

Um dia, um dos nossos maiores disse que advocacia não é profissão para covardes.

E você foi brava Valéria.

Diante do arbítrio, não se curvou.

Você, Valéria, resistiu.

Nos representou a todos.

Valéria, seu nome é ADVOGADA. 

Homero Junger Mafra
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