Lançamento do documentário "Sem Saída" é marcado por dado alarmante e fortes depoimentos



O dado revelado no lançamento do documentário “Sem Saída” nesta quarta-feira (16) causa indignação. No levantamento feito durante a produção, ficou constatado que dos 48 jovens até 18 anos, assassinados em fevereiro 2017, durante a greve da polícia militar do Espírito Santo, 42 são egressos do Sistema Socioeducativo do Estado. 

Essa realidade, segundo a diretoria de Direitos Humanos da OAB-ES, Verônica Bezerra, que realizou a pesquisa e levantamento do documentário, “é fruto da falta de Políticas Públicas para os jovens. Os equipamentos que compõem as Políticas Públicas básicas precisam estar preparados para acolher e atender os jovens, com todas as contradições e complexidades que essa fase da vida traz arraigada em si.” 

Verônica frisou: “É preciso pensar saúde, educação, assistência, trabalho, moradia e lazer para a juventude. Hoje infelizmente a pasta que olha para a juventude é a segurança pública, com o viés repressor e criminalizador. Como já nos embala a música: ‘a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte’.” 




Os números alarmantes refletem a dor evidente no depoimento do seu chaveiro Adérito de Paula Martins durante o lançamento do documentário. “Ontem um menino na rua, hoje um menino no presídio e amanhã um menino no cemitério. Esse é o nosso sistema capitalista. Temos que interromper esse círculo vicioso”, declarou. Adérito perdeu o filho de 17 anos assassinado em fevereiro de 2017. 


A conselheira tutelar da Serra Andréa Aparecida Moreira Gomes, também contribuiu com o vídeo, expondo sua dor pelo assassinato do filho de 23 anos. “Nós precisamos mobilizar toda a sociedade, porque hoje foi meu filho, amanhã será outro e assim por diante. Não podemos pensar que o mundo está perdido, apesar de toda a nossa dor, porque essa mudança depende de nós. Será que se meu filho fosse um loiro de olhos azuis ele teria sido assassinado? Mas a vida continua e nós temos que seguir lutando. ” 

Diante do mesmo sofrimento, a auxiliar de serviços gerais Mônica de Oliveira deixou claro que aprovou o documentário porque todos os envolvidos compartilharam de sua dor. 

Para o membro do Centro  de defesa dos Direitos  Humanos da Serra Gilmar Ferreira, reencontrar os familiares das vítimas no lançamento do vídeo foi muito marcante. “Eu caminhei em uma maratona durante a produção para encontrar essas pessoas, entender e ouvir suas histórias. 

Gilmar, foi muito marcante reencontrar aqeulas pessoas que eu caminhei numa maratona nesse período para encontra-las e entender e ouvir suas histórias. “Eu queria muito não ter que contar essas tristes histórias do documentário. Temos uma realidade onde a presença do Estado se dá com homens armados, através da polícia e não na educação, saúde, cultura e lazer. É impressionante como existe uma separação, como se existisse um muro separando um lado de outro, dos negros, pobres, jovens e do outro a classe média, poderosos e elite”, ponderou. 

Na avaliação da Secretária de Cidadania e Direitos Humanos de Vitória, Nara Borgo, o documentário é extremamente importante para mostrar a realidade vivida no Estado do Espírito Santo naquele período de fevereiro. “Também é importante para mostrar que essas pessoas que são mortas têm um rosto, uma vida. É preciso mostrar ainda a dor da família, porque as vezes a violência é tão banalizada que a gente esquece o que tem por trás disso tudo. Então, o documentário é importante para não esquecermos desse extermínio, principalmente da juventude negra, mas também para fazer com que a sociedade conheça a dor de todas as famílias envolvidas. Quando se pensa em segurança pública e direitos humanos, temos que pensar para todas e todos e não para uma parcela da população”, afirmou. 

O coordenador  do Círculo Palmarinho Luiz Inácio Silva da Rocha frisou que “o documentário reforça nosso compromisso de romper com esse processo de extermínio da juventude negra no Espírito Santo. Precisamos romper a invisibilidade sobre esse tema, porque a cada jovem que morre não é só mais um jovem, pois ele faz parte desse processo como um todo de extermínio.” 

Para o ex- presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos Bruno Toledo, "o documentário é um marco na luta pelos direitos humanos no Espírito Santo. Ele traz à luz dramas sociais dos mais graves e que são insistentemente invisibilizados pelo Estado e pela sociedade em geral: os dramas provenientes da privação generalizada de direitos de enorme parcela da nossa população. Além disso, dá voz às vítimas que são reiteradamente silenciadas e esquecidas. Parabéns à OAB e a todos os envolvidos nesse projeto corajoso que escancara a verdade, resgata a memória e não nos deixa esquecer das nossas culpas!"

Integrante do Grupo de Pesquisa Homo Sacer, a estudante de direito Thaís Conceição Cabidelli da Silva participou da produção do vídeo e salientou que foi uma experiência muito diferente. “Nos aprofundamos mais na realidade das famílias que perderam entes. Isso promove na gente uma acessibilidade de causa maior e é muito importante na militância pelos direitos humanos.” 

Por fim, o documentário comprova que fevereiro de 2017 não acabou. 

Compuseram a mesa na abertura do lançamento do documentário o presidente da OAB-ES, Homero Mafra, o secretário geral Ricardo Brum, a secretária geral adjunta Érica Neves, a Diretora de Direitos Humanos da Ordem, Verônica Bezerra,  a Secretária de Cidadania e Direitos Humanos de Vitória Nara Borgo, ex- presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos Bruno Toledo, o coordenador do Observatório da Mídia Edgar Rebouças, o membro do Centro  de defesa dos Direitos Humanos da Serra Gilmar Ferreira e o professor Paulo Velten, coordenador do Grupo de Pesquisa Homo Sacer, da Ufes. 

DOCUMENTÁRIO

O documentário é uma realização do Grupo de Pesquisa Homo Sacer, com apoio da OAB-ES, Observatório da Mídia e Centro  de defesa dos Direitos  Humanos da Serra.

São 43 minutos de gravação, com a participação de representantes da Igreja Católica, pesquisadores, professores e militantes de direitos humanos.

VEJA O DOCUMENTÁRIO NA ÍNTEGRA 


Galeria de Fotos

keyboard_arrow_up