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Artigo: Mais que um cartaz

Publicado em 10 de Outubro de 2017 • 16:00

Artigo: Mais que um cartaz

Verônica Bezerra, Presidente da Comissão

 de Direitos Humanos da OAB/ES


Um cartaz colado em um poste defendendo o extermínio e uma autoridade da segurança pública fazendo apologia a castração química. Propostas que visam, na argumentação dos proponentes, “resolver a questão da criminalidade”. Diante disso, tenho certo que conseguimos nos superar na nossa dimensão humana, e abandonamos a nossa dimensão divina, quando com tranquilidade, propomos a eliminação da dignidade da pessoa humana.

Quando chegamos ao ponto de propor medidas que descaracterizam a pessoa humana, que vêem no outro o inimigo, conseguimos cavar mais um pouquinho no fundo do poço. Ao propormos medidas que, para além de violar direitos fundamentais, desfiguram a natureza humana, na verdade, estamos nos violando, estamos ferindo a nossa própria dignidade, estamos abrindo mão de ser gente.

Propor a eliminação do outro, seja por extermínio ou castração,  é a maneira mais monstruosa que chegamos. É assinarmos a declaração que estamos perdidos e não temos solução. A falência da existência. Garantir acesso as políticas públicas de qualidade, é sem dúvida o caminho para reduzir desigualdades e produzir o bem viver (como já proclamado por todos especialistas de plantão), mas para ter o acesso é imprescindível que haja a política pública funcionando, para todos e todas. Inobstante a isso, é preciso aprofundar mais. É preciso despasteurizar as relações. É preciso aceitar que algo dentro de cada um de nós se quebrou. Digo nós, pois os que falam e os que calam, neste momento são iguais.

Agora, é preciso que se apure o que for de apuração, e é preciso que façamos um desvio de rota urgente, porque senão, não vai sobrar ninguém para contar essa história. E como o locus das violações é a relação humana, é esta que devemos cuidar, na sua forma mais simples e singela.

E fica combinado, eliminar ou castrar o outro, seja lá ele quem for, não está na ordem do dia de uma sociedade que fez a opção histórica de ter um estado democrático de direito e lutou para ver raiar no horizonte uma Constituição, dita cidadã.

Publicado originalmente no jornal A Gazeta desta terça-feira (10/10).

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