Água virtual
De acordo com as atividades desenvolvidas, o uso da água é imprescindível à vida, às atividades profissionais, ao lazer e conseqüentemente ao desenvolvimento industrial, comercial, político, sócio econômico e social. Ocorre que mesmo sendo indispensável, em vários usos, após exercer funções primordiais, a água não é percebida, sendo chamada de “água virtual” a quantidade de água incorporada aos produtos que estão disponíveis no mercado, ou no comércio entre nações. O que significa dizer que juntos com os produtos exportados tem uma grande quantidade de água utilizada na produção do bem, produto ou serviço, resumindo a água virtual está em tudo o que usamos ou consumimos.
Tautz (acesso em 11 de agosto 2007) esclarece que Argen Hoesktra, especialista internacional na matéria resume: “[...] Água virtual’ é o conceito utilizado por cientistas para calcular a quantidade de água necessária para produzir um determinado bem. ’É virtual’ porque, após o bem ser produzido, quase não contém mais água”. O especialista alerta também que: [...] os países levem em consideração o volume de água obtida em exportações e importações [...]
Portanto, quando ouvimos dizer que País é recordista em exportação de algum produto como: grãos, rebanho bovino (somos o maior do mundo), produção de aço (somos um dos maiores produtores de aço da América Latina), etanol, (oBrasil é o segundo maior produtor e o maior exportador de etanol do mundo), alumínio, etc. devemos ter em mente a quantidade de incorporação de água utilizada para todos os processos produtivos. É o caso do nosso País.
Quando exportamos 50.000 toneladas de soja exportamos também aproximadamente 130.000.000 de toneladas de água virtual, em 2005 exportamos o equivalente a 50 bilhões de m³ somente com a soja.
No caso da exportação de carnes bovinas e de frangos, somente em 2004, segundo IEA (Instituto de Economia Agrícola), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, exportamos o equivalente a 20 trilhões de litros de água.
Apenas para uma compreensão melhor do que seja água virtual, listamos abaixo a quantidade de água necessária para a produção de alguns produtos agrícolas:
Tabela 1 – Quantidade de litros de água por quilo de alimento produzido
PRODUTO | ÁGUA VIRTUAL (litros de água por Kg de alimentos produzidos |
Arroz | 1.400 a 3.600 |
Aveia | 2.374 |
Aves/Galinha | 2.800 a 4.500 |
Azeite de Oliva | 11.350 |
Azeitona | 2.500 |
Banana | 499 |
Batata | 105 a 160 |
Beterraba | 193 |
Cana-de-açúcar | 318 |
Carne de boi | 13.500 a 20.700 |
Carne de porco | 4.600 a 5.900 |
Laranja e outros citros | 378 |
Leite | 560 a 865 |
Manteiga | 18.000 |
Milho | 450 a 1.600 |
Óleo de soja | 5.405 |
Ovos | 2.700 a 4.700 |
Queijo | 5.280 |
Soja | 2.300 a 2.750 |
Tomate | 105 |
Trigo | 1.150 a 2.000 |
Uva | 455 |
Fonte: SABESP[1]
Segundo Cortez (acesso em 04 de julho 2007), em 2003 já ocupávamos o 10º lugar de maior exportação de “água virtual” do planeta, acrescenta ainda que:
O volume da água exportado pelo agro negócio é mais do que significativo, mas a água virtual também tem peso em outros setores. No Brasil, nossa geração de energia elétrica é essencialmente hidrelétrica, o que faz a água ser componente de tudo que demanda energia elétrica. Isto é muito claro na indústria elétrointensiva (alumínio, siderúrgica, ferro ligas, papel e celulose e petroquímica).”
Para produzir uma tonelada de aço, são necessários 15 mil litros de água, além da energia elétrica que decorre da hidrelétrica, pois 28,8% da energia elétrica do nosso país é consumida por 408 indústrias eletrointensivas, sendo que. 41% do custo final do alumínio corresponde à energia elétrica, o que leva Cortez, (2005) a concluir que:
[...] É por isso que o Japão produzia 1,1 milhão de toneladas de alumínio por ano e baixou a produção para apenas 41 mil toneladas/ano, passando a importar o restante. Neste caso, a industria eletrointensiva é ‘competitiva’ porque, como todas as exportações de bens primários de baixo valor agregado, soma mão de obra barata, energia elétrica subsidiada e gigantescas quantidades de água virtual.
Diante do panorama atual de exportação de água virtual, o autor encerra o artigo destacando:
[...] se não compreendermos a importância de implementar as políticas publicas de proteção aos mananciais e ao acesso à água, estaremos subsidiando o poder econômico e político de quem controlar os estoques de água.
Segundo John Anthony Allan, cientista britânico que descobriu a fórmula matemática que calcula a quantidade de água utilizada para produzir qualquer alimento ou produto e com a descoberta recebeu o Stockholm Water Prize em 2008, promovido anualmente pelo Instituto Internacional da Água de Estocolmo, afirma que atualmente o Brasil é, em potencial, o maior “exportador” de água virtual do mundo.
EXTERNALIDADES NEGATIVAS
Diante do quadro apresentando no que diz respeito à água virtual, e diante dos impactos sócio-ambientais do uso da água, verifica-se quão imprescindível é esse bem e questiona-se: como viver sem a água? e como preservar e valorar esse bem ambiental?
Ante o exposto, Calderoni comenta:
[...] Surge então a necessidade de se encontrar um mecanismo que torne possível a internacionalização das externalidades, de modo que as empresas ou os indivíduos compreendam claramente que existem custos e benefícios sociais, ou seja, que é necessário levar em consideração seus efeitos positivos ou negativos na implantação de uma atividade econômica.” (2007 p. 146)
De acordo o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente José Maria Ferraz, tanto na produção da cana quanto na do etanol – para se produzir um litro de álcool, gasta-se 13 litros de água[2]. Somando-se a esse gasto, para cada litro de etanol, produz-se aproximadamente 10 a 13 litros de vinhoto, que contaminam os rios e a água subterrânea. De 17 bilhões de litros de álcool, resultam em 170 bilhões de litros de vinhoto, que causarão prejuízos ao meio ambiente. (BETING, 2007)
Tais efeitos positivos ou negativos resultam nos custos sociais decorrente de um fator de degradação ambiental, o que do ponto de vista econômico e ambiental é chamado de “externalidades negativas ambientais”, e tais custos sociais devem ser transferidos ao usuário do bem ambiental, pois se assim não for ele herdará o lucro e a sociedade arcará com o prejuízo causado ao meio ambiente.
Diante de todo esse quadro, conclui-se que se torna imperioso uma rápida conscientização das nações no que tange ao consumo mais salutar da água. Apesar da grande importância, o homem, o maior beneficiado com esse recurso ambiental, pouca, ou quase nenhuma importância tem dado à sua correta utilização e preservação.
Ilma de Camargos Pereira Barcellos é graduada em Administração pela Faculdade Candido Mendes (Vitória-ES) e em Direito pelo Centro Universitário Vila Velha.
BIBLIOGRAFIA
CALDERONI, Sabetaí. Economia Ambiental. Curso de Gestão Ambiental / Arlindo Philippi Jr., Marcelo de Andrade Roméros, Gilda Collet Bruna, editores. Barueri, SP: Manole, 2004 (p.571-616)
CORTEZ, Henrique. O século do hidronegócio. Disponível em: <http://www.mabnacional.org.br/noticias/270705_hidronegocios.htm> Acesso em 04 jul. 2007.
BETING, Joelmir. O novo artigo de Fidel. Disponível em: <http://www.joelmirbeting.com.br/noticia_detalhe.asp?IdNews=29177&IdgNews=9> Acesso em: 24 de ago. 2007
TAUTZ, Carlos. Brasil é 10º exportação mundial de “água virtual”. Disponível em <http://www.agirazul.com.br/fsm4/_fsm/0000010a.htm> Acesso em: 16 ago. 2007.
Opiniões referidas em artigos não representam uma linha editorial ou pensamento do sítio eletrônico.
[1] Disponível em: < http://www.sabesp.com.br/CalandraWeb/CalandraRedirect/?temp=4&proj=sabesp& pub=T&db=&docid=01DA58C98B0A62D7832571CA0046F76C> Acesso em: 18 julho 2007
[2]Disponível em: <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/03/374894.shtml>Acesso em: 28 Agosto 2007
