Mayara de Oliveira Nogueira Loyola

PARA UM COTIDIANO DO TOQUE

Nas histórias contadas em pontos de 15 segundos no Instagram, vi que dois mil e vinte foi o melhor dos anos da vida de um colega de profissão por quem nutro profundo afeto. Ao ver e ouvir sua declaração, num só tempoalegrei-me com sua alegria e me questionei sobre como um intervalo de tempo pode ter significados tão diferentes para os sujeitos. Na diretoria da Comissão de Direitos Sociais, por exemplo, ouvi muitas histórias em que a narrativa deixava claro ser esse o pior dos anos. Para mim mesma não foi o melhor ou mais gentil.

Um tanto quanto óbvia minha primeira observação da discrepância de significados, uma vez que os sujeitos são distintos e as experiências vividas tanto mais. Mas o efeito de sentido de “um mesmo intervalo de tempo tersignificação diferente” vai além dos limites da semântica quando o que está em cena são as experiências vividas no ano mais incomum de nossa geração.

Inúmeros atores caracterizaram e categorizaram este período – ou melhor: as ações e os hábitos (que deveriam ser) adquiridos – como sendo “o novo normal”. No entanto, o termo “novo normal” não me parece o mais ajustado. Ao menos não no sentido de existir um único ajuste para “normal” e tampouco no sentido de ser normal pensado por Harvey Sacks, Sociólogo que se ocupou nos anos 1960-1970 do estudo daquilo que era absolutamente banal e cotidiano.

De acordo com Sacks, em “On doingbeingordinary, para sermos socialmente considerados como “normais” fazemos um trabalho interacional e performático imenso a fim de que não ajamos para mais ou para menos do que seja esperado em determinada situação e em dado contexto situacional. Por exemplo: ao ouvirmos uma piada, há uma quantidade de riso proferido considerado como normal; ao chorarmos por alguém, há uma quantidade de choro socialmente tomado como aceitável. Normal, então, teria um sentido de norma social.

Com o choque de narrativas e performances de normalidade nos correntes dias pandêmicos, creio que o ano que se finda não instaura um novo normal para todos, mas invariavelmente institui um novo cotidiano e novas formas de nos relacionarmos uns com os outros.

Um novo cotidiano se instituiu em nossos lares quando nossas casas se tornaram espaço de aprendizado pedagógico pleno, quando nossos cômodos se tornaram salas de aula para que o abecedário fosse aprendido ou a fórmula de Bhaskara apropriada. Uma nova (não)rotina se construiu na desordem de se trabalhar em casa ao mesmo tempo em que outros papeis eram desempenhados, especialmente o papel de mãe/pai e toda a demanda que isso implica.

Um novo cotidiano se instituiu quando as salas de audiência se metamorfosearam para salas virtuais de plataformas digitais e à fórceps (como inúmeros outros profissionais) tivemos que aprender a usar aplicativos de conferência para sustentações orais, audiências ou reuniões remotas com clientes.

O ano chega a seu fim e o que era novo ganha um mínimo de intimidade: a máscara que nos era estranha faz parte da vestimenta; o álcool então em desuso hoje está sempre à mão e os meios de nos comunicar digitalmente seja para fins profissionais/institucionais, seja para fins não-profissionais nos é um tanto mais familiar. Habitus. Como nos diz Bourdieu, um modo de pensar esse processo de constituição das identidades sociais no mundo contemporâneo levando em conta esses esquemas fundamentais.

O que nos fundamentou no início – o medo – dá lugar à esperança.

Um novo ano sempre anuncia o velho esperançar.

Mas o esperançar anunciado para dois mil e vinte e um é tanto maior.

Um grito contido que se quer ecoar. E sem máscaras sobre a boca.

Para além da atividade metarreflexiva de que nos fala Giddens, esse “quase artigo, quase crônica” se constrói na crença de que o próximo ano nos seja melhor. Com sorrisos vistos não apenas pelos olhos.

Menos pixels, mais toques.


*Mayara de Oliveira Nogueira Loyola é presidente da Comissão de Direitos Sociais da OAB-ES

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